
Lentilha no Réveillon: tradição no prato, saúde e oportunidade no campo
Nas festas de fim de ano, a lentilha não pode faltar à mesa dos brasileiros. A tradição popular acredita que consumir essa leguminosa na noite de Réveillon traz prosperidade e boa sorte para o ano que se inicia.

No entanto, a lentilha é muito mais do que um símbolo de abundância. Trata-se de uma leguminosa de elevado valor nutricional, sendo uma importante fonte de proteínas, vitaminas e minerais, como cálcio e ferro, além de conter diversos aminoácidos essenciais. Versátil na culinária, adapta-se a diferentes preparações e apresenta como vantagens uma cocção mais rápida e melhor digestibilidade quando comparada ao feijão.
Um dado que chama a atenção é que praticamente toda a lentilha consumida no Brasil é importada. Em 2025, o país importou cerca de 15,3 mil toneladas do grão, movimentando aproximadamente US$ 17,4 milhões. Desse total, 87% teve origem no Canadá, maior exportador mundial de lentilha. Esse cenário contribui para que o produto não seja acessível a uma parcela significativa da população, com preços que variam entre R$ 20,00 e R$ 30,00 o quilo — valor consideravelmente superior ao do feijão, alimento básico da mesa brasileira.
Mas por que o Brasil importa lentilha em vez de produzi-la? A resposta está, em grande parte, na ausência de tradição no cultivo dessa leguminosa. Ainda assim, esse quadro vem mudando. A Embrapa já desenvolveu cultivares adaptadas às condições tropicais e, em parceria com instituições públicas e privadas, tem gerado conhecimentos técnicos que viabilizam o cultivo no país. Em regiões de clima mais ameno — já que a lentilha não tolera temperaturas elevadas —, seu cultivo pode representar uma excelente alternativa para a diversificação das atividades agrícolas.
O fortalecimento da cadeia produtiva da lentilha no Brasil e a ampliação da área cultivada podem gerar impactos positivos significativos, como aumento da renda no campo, geração de empregos e maior autonomia produtiva. Além disso, trata-se de uma cultura com potencial para sistemas de produção mais sustentáveis, uma vez que, nas condições nacionais, apresenta baixo índice de pragas e doenças, reduzindo a necessidade do uso de defensivos agrícolas.

Com a produção nacional, o produto tende a chegar ao consumidor final a um custo menor do que o da lentilha importada, favorecendo o aumento do consumo interno. Assim, toda a cadeia — do produtor ao consumidor — poderá ser beneficiada, fortalecendo a segurança alimentar e a economia agrícola do país.
Leitura adicional:
https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/67689520/artigo---lentilha-do-brasil-para-a-india
Warley Marcos Nascimento – pesquisador da Embrapa Hortaliças e presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH), e-mail: [email protected]
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