
Margens apertadas e custos elevados: o cenário econômico das hortaliças no Brasil
A relevância da cadeia produtiva de hortaliças já foi destacada diversas vezes nesta coluna — tanto pela geração de renda e de empregos diretos e indiretos quanto pelo estímulo ao mercado de máquinas, implementos e insumos (sementes, adubos, defensivos, materiais de irrigação, embalagens etc.). No entanto, seu maior valor está no fornecimento contínuo e diário de produtos essenciais à nossa alimentação.
Como ocorre em qualquer setor produtivo, há períodos de expansão e retração, influenciados pelas condições do mercado nacional e internacional. Na agricultura, somam-se ainda os efeitos das mudanças climáticas, que vêm afetando de forma sistemática os cultivos e a infraestrutura de produção. No caso específico das hortaliças — produzidas tanto por agricultores familiares quanto por empresas tecnificadas — o cenário ao longo deste ano foi particularmente desafiador. Observou-se, em praticamente todas as cadeias, um conjunto de fatores que impactou a produção, elevou custos e reduziu a rentabilidade dos produtores.

Insumos mais caros e pressão cambial
Entre os principais entraves está o custo crescente dos insumos agrícolas, que elevou significativamente o custo de produção e comprometeu o orçamento das propriedades, especialmente das pequenas. É importante destacar que muitos desses insumos têm preços diretamente atrelados ao dólar, o qual se manteve em patamares elevados durante o ano, agravando ainda mais o cenário.
Escassez de mão de obra
Outro fator relevante é a falta de mão de obra disponível e qualificada. A dificuldade em contratar trabalhadores não apenas aumentou os custos operacionais, como também trouxe entraves ao ritmo e à qualidade de diversas etapas do processo produtivo.
Preços recebidos não acompanham os custos
Apesar desse ambiente de custos altos, a oferta e a qualidade das hortaliças foram mantidas ao longo do ano. Entretanto, os preços pagos aos produtores não acompanharam essa elevação. Em muitos casos, os valores praticados em supermercados, feiras e hortifrutis ficaram muito abaixo do necessário para cobrir os gastos e investimentos realizados. Soma-se a isso o fato de que as margens de lucro nos pontos de venda têm se mantido elevadas: o preço ao consumidor chega a alcançar de três a cinco vezes o valor pago ao produtor. Esse descompasso encarece o produto final e afasta parte dos consumidores, reduzindo a demanda. Outro agravante é que as perdas e reposições nas gôndolas, em muitos estabelecimentos, recaem sobre os próprios produtores — sobretudo pequenos e médios — ampliando seus prejuízos e comprometendo a sustentabilidade econômica da atividade.
Considerações finais e perspectivas futuras
Em síntese, o alto custo de produção, combinado aos baixos preços recebidos pelos agricultores, tem reduzido drasticamente as margens de lucro e intensificado a pressão sobre quem produz. Paralelamente, o preço final mais elevado diminui o consumo de hortaliças — um alimento fundamental que deveria estar sempre presente na mesa dos brasileiros.
Diante desse cenário desafiador, 2026 se apresenta como um ano decisivo para o fortalecimento da cadeia produtiva de hortaliças. A expectativa é de avanços importantes na adoção de tecnologias de produção mais eficientes, de uma gestão mais rigorosa dos recursos com um uso racional de insumos e de uma ampliação de práticas sustentáveis, capazes de reduzir custos e aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas.
Espera-se ainda uma maior organização e articulação entre produtores com o setor varejista promovendo assim, uma distribuição mais justa do valor ao longo da cadeia produtiva de hortaliças. Vale mencionar a busca por novos mercados, uma maior agregação de valor aos produtos, a utilização de embalagens inovadoras, rastreabilidade etc, permitindo, inclusive, uma maior segurança do alimento oferecido. Para aqueles formuladores de políticas públicas, há a necessidade de um maior estímulo ao consumo de alimentos frescos e saudáveis. Assim, com planejamento, inovação e cooperação, há, sem dúvida, espaço para recuperar a competitividade do setor e construir um ambiente mais equilibrado e favorável a quem produz e a quem consome hortaliças no país.
Warley Marcos Nascimento – Pesquisador da Embrapa Hortaliças e Presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH)
E-mail: [email protected]
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