
O acordo Mercosul-UE e as cadeias produtivas de melão e melancia
A divulgação recente da assinatura do acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE), composta por 27 países, e o Mercosul, formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, trouxe, neste começo de ano, um importante estímulo que deve ampliar ainda mais o volume e a receita das exportações brasileiras. Embora o acordo vá além do setor agropecuário, esse segmento foi o mais delicado ao longo dos 25 anos de negociações entre o Mercosul e a UE. Trata-se de um entendimento que abrange cerca de 720 milhões de consumidores — sendo 450 milhões na Europa e 270 milhões na América do Sul — e um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente US$ 22 trilhões, o equivalente a cerca de 25% do PIB mundial.

Mercado externo de melão e melancia
No contexto do agronegócio brasileiro, diversos produtos vêm sendo exportados ao mercado europeu. Diferentemente das commodities tradicionalmente exportadas pelo Brasil, como soja, milho, café, açúcar, carnes e suco de laranja, dentre outros, as hortaliças possuem um mercado externo mais limitado, concentrado em poucas culturas. Entre elas, ganham destaque o melão e a melancia, popularmente considerados frutas, mas tecnicamente classificados como hortaliças. As exportações brasileiras desses dois produtos têm crescido de forma contínua e, em 2025, de acordo com dados do Comex/MDIC, atingiram US$ 231,4 milhões no caso do melão e US$ 115,6 milhões no da melancia. Embora o Brasil exporte essas duas hortaliças para mais de 80 países, a maior parte do volume é destinada à União Europeia, principal parceiro comercial do país, com destaque para Países Baixos, Espanha e Reino Unido.
Benefícios do Acordo
No médio e longo prazo, o Brasil tende a ser um dos grandes beneficiados pelo acordo, considerando que a União Europeia já ocupa a posição de segundo maior destino do agro brasileiro, atrás apenas da China e à frente dos Estados Unidos.
De modo geral, o acordo prevê que diversos produtos passem a contar com isenção imediata ou redução gradual das tarifas de importação no mercado europeu, culminando, após um período determinado, na eliminação total de tarifas e cotas para entrada na UE. Especificamente para o melão e a melancia, cuja taxa de importação atual é de 8,8%, está prevista uma redução anual em torno de 1% ao longo de 7 a 8 anos, até sua completa extinção.
Competidores do Brasil
A atual alíquota de importação aplicada a essas duas culturas, de 8,8% — incidente sobre o valor do produto somado ao frete —, gera um impacto significativo no preço final, reduzindo a competitividade do Brasil frente a seus principais concorrentes. Países da América Central, como Honduras, Costa Rica e Guatemala, por exemplo, já operam com tarifas reduzidas ou até mesmo zeradas, em razão de acordos bilaterais previamente firmados com a União Europeia. Nesse contexto, o recente acordo abre a perspectiva de isenção total dessas tarifas, fortalecendo a competitividade do melão e da melancia brasileiros em relação a concorrentes que já usufruem de benefícios tarifários semelhantes.

Ações futuras
Esse acordo torna-se ainda mais estratégico para o Brasil diante da redução, em 2025, das exportações de determinados produtos agrícolas para os Estados Unidos, em decorrência do aumento expressivo de tarifas adotado por aquele país. Além disso, outros importantes parceiros comerciais, como a China, também passaram recentemente a impor medidas e restrições a alguns produtos do agronegócio brasileiro. A eliminação das barreiras comerciais entre os dois blocos tende a estimular investimentos em inovação, logística e expansão da produção nacional, impulsionando o fluxo comercial e consolidando a relevância das cadeias produtivas de melão e melancia no mercado internacional.
Diante desse cenário, embora produtores e exportadores brasileiros enfrentem exigências técnicas e fitossanitárias rigorosas impostas pela União Europeia, esse desafio não tarifário reforça a credibilidade e a competitividade do setor. Assim, o acordo transcende a dimensão comercial ao consolidar a integração entre os blocos e projetar, de forma definitiva, a qualidade das hortaliças brasileiras no mercado internacional.
Warley Marcos Nascimento – Pesquisador da Embrapa Hortaliças e Presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH); e-mail:[email protected]
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