quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

O labirinto da soja: riscos do agronegócio brasileiro na crise EUA-China
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Alexandre Nepomuceno
20/09/2025

O labirinto da soja: riscos do agronegócio brasileiro na crise EUA-China

A dependência do Brasil em relação ao mercado chinês de soja é uma espada de dois gumes. Por um lado, ela impulsionou as exportações e a balança comercial a patamares recordes. Por outro lado, essa relação assimétrica expõe o agronegócio brasileiro a riscos consideráveis, especialmente no contexto da acirrada disputa comercial entre Estados Unidos e China. Uma crise devastadora está começando a ser enfrentada pelos agricultores americanos, que podem ter perdido seu maior cliente. Essa situação, embora tenha beneficiado o Brasil no curto prazo, serve como um alerta para a vulnerabilidade de nossa própria cadeia de valor.

A China, com seu vasto mercado e apetite por proteína, tornou-se o principal destino da soja brasileira, absorvendo mais de 70% de nossas exportações do grão. Essa concentração de mercado, embora lucrativa, nos coloca em uma posição de grande dependência. A guerra comercial iniciada por tarifas impostas por Donald Trump, fez com que Pequim retaliasse, suspendendo as compras de soja americana. O resultado tem sido um influxo de negócios para o Brasil, que preencheu a lacuna deixada pelos agricultores dos EUA.

No entanto, essa "bonança" pode ser temporária. A decisão da China de rejeitar a soja americana foi uma manobra política para pressionar o governo dos EUA. No entanto, essa mesma estratégia pode ser usada contra o Brasil no futuro, caso as relações diplomáticas/comerciais se deteriorem, ou a China ceda no comércio da soja com os Estados Unidos para ganhar em outras frentes de negociação mais vantajosas. A vulnerabilidade do agronegócio brasileiro fica evidente: nossa prosperidade está atrelada à política externa de duas superpotências, e não a uma estratégia de diversificação de mercado ou agregação de valor.

A crise nos EUA está forçando os agricultores a armazenar grandes volumes de soja, que provavelmente levará a uma queda nos preços e uma incerteza que pode levar à falência de muitos produtores americanos. No Brasil, essa situação tem permitido a estabilidade nos preços e aumento no volume de demanda por nossa soja. No entanto, a situação pode ser efêmera. A China não tem interesse em manter uma dependência total de uma única fonte de alimentos, mesmo que seja do Brasil.

A estratégia chinesa de "Just in Case", que significa "por precaução", marca uma mudança fundamental na política de segurança alimentar do país. Ao contrário do modelo tradicional "Just in Time", que prioriza a eficiência e a redução de custos, a China agora adota uma abordagem mais resiliente. O objetivo é garantir um suprimento contínuo de alimentos, protegendo-se contra interrupções causadas por problemas climáticos, por falhas na logística de armazenamento e transporte, crises no mercado, ou devido a disputas geopolíticas.

É esta uma das propostas da "Nova Rota da Seda" criada pelo presidente chinês Xi Jinping em 2013 onde grandes aportes de financiamentos e investimentos em infraestrutura vem sendo negociados, principalmente em países da África subsaariana, no sul asiático, leste europeu e Rússia. Quase 50% dos investimentos chineses tem ido para a África subsaariana, região com mais de 200 milhões de hectares de áreas com clima e solo semelhantes aos do Brasil. O desenvolvimento de variedades de grãos adaptadas a essas áreas, aliado à construção de ferrovias, rodovias e portos, e a imposição por parte da China de uma melhor governança nos países da região, coloca o continente africano  como um futuro grande fornecedor de grãos para a China.

Essa estratégia de médio e longo prazo da China é um sinal claro de que a janela de oportunidade para o Brasil, como principal fornecedor de soja, pode estar se estreitando. Em poucas décadas, a China pode ter uma fonte de grãos mais próxima e potencialmente mais barata. É premente a necessidade do Brasil de agregar valor aos seus produtos agrícolas. Segundo dados recentes do CEPEA/ESALQ, uma tonelada de grãos de soja exportados agrega aproximadamente R$ 2.160 no PIB, enquanto a soja processada na Agroindústria nacional agrega ao PIB brasileiro R$ 7.269 por tonelada, gerando três vezes mais empregos no Brasil. O modelo atual, focado na exportação de commodities brutas, é insustentável a longo prazo. Se a China ou outro grande comprador reduzir drasticamente a demanda, a economia brasileira, especialmente o agronegócio, sofrerá um impacto severo.

Além da agregação de valor, que o Brasil já vem fazendo através da produção de carnes, a transição energética que o mundo vive, saindo de uma economia da “química fóssil”, para uma da “química verde” se apresenta como uma grande oportunidade. O Brasil, como potência agrícola, tem o potencial de utilizar seus grãos para produzir biocombustíveis, materiais vulcanizados, bioplásticos, nanocompostos, entre outros, transformando a matéria-prima em produtos de maior valor agregado. Isso não apenas diversificaria a economia do agronegócio, mas também nos tornaria menos vulneráveis às flutuações do mercado de commodities e às disputas geopolíticas.

A crise da soja nos Estados Unidos é um espelho para o agronegócio brasileiro. Ela expõe a fragilidade de uma economia excessivamente dependente de um único cliente e de uma única commodity. Enquanto a guerra comercial EUA-China nos beneficia, a China está ativamente construindo sua própria segurança alimentar, investindo em infraestrutura e tecnologia em outras regiões.

Para mitigar os riscos e garantir a sustentabilidade de nossa prosperidade agrícola, o Brasil precisa diversificar seus mercados e, acima de tudo, agregar valor a seus produtos. A exportação de soja, milho e outros grãos deve ser apenas uma parte desta estratégia. O futuro do agronegócio brasileiro reside na capacidade em transformar nossa riqueza agrícola em produtos industriais e biotecnológicos, para que não sejamos apenas líderes na produção, mas também na bioeconomia, na inovação e na sustentabilidade agrícola.

Alexandre Nepomuceno é chefe-geral da Embrapa Soja

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