terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O Salto Invisível: A Revolução da Edição Gênica e o Futuro no Campo
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Alexandre Nepomuceno
08/01/2026

O Salto Invisível: A Revolução da Edição Gênica e o Futuro no Campo

O uso da biotecnologia na agricultura global vive uma transformação silenciosa, mas profunda, que marca o fim de uma era de "desinformação/mistificação" e o início de uma fase de difusão do uso de tecnologias de genética de precisão molecular. Se nas últimas décadas a biotecnologia foi sinônimo de transgenia focada em grandes commodities, e resistência a herbicidas e a insetos, o período dos últimos dez anos - em especial entre 2020 e 2025 - vem consolidando uma mudança de paradigma. Essa mudança deve-se à inovação nos avanços da engenharia genética, que permitem obter organismos com as características desejáveis de forma muito mais rápida, precisa, com menor custo e iguais aos obtidos no melhoramento convencional. Dessa forma, presenciamos a transição do uso exclusivo de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), ou transgênicos, para o desenvolvimento de organismos com genoma editado. No centro desta revolução está o Brasil que, através da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), estabeleceu um ambiente regulatório seguro e tão assertivo que hoje serve de modelo internacional.

A grande protagonista deste cenário é a técnica CRISPR, uma "tesoura molecular" que permite editar o DNA de uma espécie sem a necessidade de inserir material genético de outras. Diferente da transgenia tradicional, que enfrentou moratórias, resistências culturais, políticas e comerciais, a edição gênica é vista, por agências reguladoras de países como Brasil, EUA, Canadá, Chile, Colômbia, Uruguai, Paraguai, Argentina, Japão, Austrália, entre outros, como uma técnica que utiliza engenharia genética mas que obtêm organismos similares àqueles obtidos por melhoramento convencional. No Brasil, a Resolução Normativa Nº 16 da CTNBio (RN16), de 15 de janeiro de 2018, é o marco que estabelece um sistema de consulta que permite essa distinção, classificando, numa análise caso-a-caso, produtos editados sem DNA recombinante exógeno, como convencionais.

A transgenia continuará sendo uma ferramenta importante na agricultura. Novas características em plantas geneticamente modificadas, como resistência a doenças e a nematoides, em breve entrarão no mercado. Novas combinações para resistência a insetos e herbicidas também estão chegando, como vimos recentemente com o lançamento da tecnologia Intacta 5+ da Bayer, prevista para o mercado pleno até 2028. Esta nova soja GM representa o ápice da transgenia moderna, combinando na mesma planta resistência a cinco herbicidas (Glifosato, Dicamba, Mesotriona, Glufosinato e 2,4-D) e proteção contra nove espécies de insetos, oferecendo uma blindagem mais ampla para o produtor.

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Contudo, é na "nova onda" da biotecnologia no campo, com a edição gênica que começamos a ver uma verdadeira diversificação, tanto de culturas e características,  quanto de players no mercado, permitindo uma democratização do acesso à tecnologia para além das gigantes do setor. Pela primeira vez, a biotecnologia de ponta traz ao mercado soluções e agregação de valor para culturas/espécies consideradas “culturas órfãs” ou de menor interesse econômico, ou onde a polêmica relacionada aos transgênicos impediu o uso desta tecnologia. Países como o Japão, EUA,  Colômbia, China, Filipinas, já utilizam comercialmente plantas e animais com genoma editado. No Brasil vários organismos obtidos com edição gênica já foram submetidos à consulta na CTNBio  e considerados convencionais. As modificações feitas com a técnica CRISPR permitem introduzir alterações no DNA que já existiam na diversidade genética da espécie; ou seja, ao invés das modificações terem sido feitas através do melhoramento clássico, via cruzamento natural, com o conhecimento do genoma, e das sequências de DNA envolvidas, as mudanças são feitas de forma precisa via edição genica. Essa técnica possui a grande vantagem de reduzir o tempo para transferência da variabilidade genética natural (características) entre linhagens dentro de uma mesma espécie e, principalmente, uma vez considerados convencionais pelas agências regulatórias, se reduz drasticamente os custos relacionados aos estudos de biossegurança e os gastos com os processos de desregulamentação específicos de cada país. Isto abre o caminho para que instituições públicas, startups, e pequenas e médias empresas também tragam novos produtos ao mercado.

Batata e Tomate com maior vida na prateleira, citrus com resistência ao greening, amora-Preta com uniformidade de maturação e melhor arquitetura de planta para colheita, são alguns dos exemplos de plantas que já foram submetidas à CTNBio, conforme critérios estabelecidos na RN16, e  consideradas variedades convencionais. Estas já poderiam ser comercializadas, após os processos regulares de avaliação e registro  junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária.

As grandes commodities agrícolas continuarão apresentando os maiores avanços. Em soja, por exemplo, cultivares editadas para alterar o perfil de ácidos graxos e melhorar a qualidade do óleo, já vem sendo produzidas comercialmente na China e nos EUA. Este óleo de soja de melhor qualidade é mais propício para consumo humano e para a indústria química na produção de biocombustíveis e produtos vulcanizados como pneus, asfalto e solas de calçados. Milho, cana-de-açúcar, eucalipto, arroz, algodão e sorgo, são culturas comerciais importantes que também têm sido submetidas à consulta na CTNBio após uso da tecnologia CRISPR. Características importantes, já presentes na diversidade genéticas destas espécies, foram introduzidas nestas culturas via edição gênica. Na maioria dos casos, estas foram consideradas linhagens convencionais, similares àquelas obtidas diretamente do melhoramento convencional utilizando os bancos de germoplasma destas espécies.

A edição gênica em animais também avança rapidamente. No Brasil, já foram submetidos à consulta na CTNBio e enquadrados como organismos convencionais tilápias com genoma editado para maior rendimento de filé e bovinos da raça Angus editados para o "gene slick", que confere maior tolerância ao calor e resistência ao estresse térmico. Porcos com resistência ao vírus causador da Síndrome Respiratória e Reprodutiva Suína, doença grave que atinge vários países, também foi considerado um organismo convencional no Brasil, Colômbia, EUA e Argentina. Entretanto, é na área dos bioinsumos que observamos o maior número de consultas. Cerca de 50% dos processos na CTNBio envolvem microrganismos com genoma editado visando melhorar características como: fixação de nitrogênio, solubilização de nutrientes, controle de doenças e pragas, e para aumento na eficiência de produção de bioetanol.

O Brasil encerra este ciclo de 2020-2025 como um dos líderes na convergência de novas tecnologias de base genética na agricultura. Um sistema regulatório sólido e seguro, pautado no conhecimento científico, garante a inovação para os produtores lidarem com os desafios da produção agrícola em todos seus aspectos, do custo de produção ao combate aos efeitos das mudanças climáticas. Mais que isso, uma legislação assertiva garante segurança jurídica para o investimento, acelerando a chegada da inovação ao setor produtivo e posicionando a América do Sul como protagonista global. A biotecnologia, deixou de ser uma ferramenta de nicho para se tornar o sistema operacional de um agronegócio que precisa ser, simultaneamente, mais produtivo, saudável e sustentável. O futuro já foi editado; agora, ele começa a ser colhido.

 

Alexandre Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja

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