domingo, 16 de junho de 2024

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Pesquisa ajuda Brasil a conquistar denominação de origem de espumante

Tags: embrapa, INPI, Origem de Espumante, Serra GaúchaSante

Altos de Pinto Bandeira, região de altitude da Serra Gaúcha, foi a primeira do Hemisfério Sul a se dedicar exclusivamente à produção de espumante natural e acaba de conquistar o selo de denominação de origem (DO) para esse tipo de produto. A DO recém-obtida da bebida gaúcha tem status equivalente ao da Champagne da França, ao do Cava da Espanha, e ao da Franciacorta, da Itália. Esses espumantes têm em comum o uso exclusivo da marca indicadora de seu local de produção, a chamada denominação de origem. A expectativa é que os atuais produtores, as vinícolas Aurora, Don Giovanni, Família Geisse e Valmarino, disponibilizem as primeiras garrafas com o selo da DO já no primeiro semestre de 2023.

A DO de Altos de Pinto Bandeira foi obtida por meio de um amplo trabalho de diferentes instituições lideradas pela Embrapa Uva e Vinho (RS). O trabalho técnico-científico é fundamental para cumprir as exigências para esse tipo de registro feito pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

“Poder apresentar um espumante com o selo da denominação de origem é uma grande conquista, que exigiu competência profissional e dedicação dos vitivinicultores. Eles buscaram na Embrapa a orientação técnica para essa trajetória”, lembra o pesquisador da Embrapa Jorge Tonietto, que atua em estudos de estruturação e gestão de indicações geográficas.

Tonietto conta que, desde o início da cooperação estabelecida com os produtores em 2005, a conquista de uma DO era um objetivo do grupo no longo prazo. “Os produtores sabiam que a bebida tinha as qualidades necessárias, mas foi necessário internalizar todos os processos de produção de uma forma coletiva no território. Um grande passo foi a estruturação da Indicação de Procedência de vinhos Pinto Bandeira, reconhecida em 2012”, complementa.

O trabalho da pesquisa

Para a obtenção dessa DO, a Embrapa coordenou estudos detalhados de solos, clima, relevo, aptidão das cultivares, sistemas de cultivo, caracterização dos produtos elaborados, paisagem e renome. Participaram especialistas da Universidade de Caxias do Sul (UCS), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de duas unidades de pesquisa da estatal: Embrapa Uva e Vinho e Embrapa Clima Temperado.

Com base nas informações técnicas da região e de seus produtos, a equipe de técnicos, em conjunto com os produtores, estabeleceram os requisitos de produção necessários para garantir que o produto tenha as qualidades e as características da indicação geográfica (IG), os quais passam a fazer parte do Caderno de Especificações Técnicas, que inclui, entre outros, toda a normativa de produção e controle específicos da IG.

Os cientistas também tiveram de traçar o perfil químico que caracteriza os espumantes da região, o que inclui informações como o teor alcoólico, acidez, teor de açúcar e compostos orgânicos e minerais (conhecidos como extrato seco reduzido). Outros dados desse grupo incluem a intensidade da cor e o grau de envelhecimento. Como resultado, o pesquisador Celito Guerra explica que os espumantes da DO Altos de Pinto Bandeira apresentam características analíticas que refletem os fatores naturais dos locais onde as uvas são cultivadas, representados pelas variáveis climáticas, pedológicas e de relevo.

Outro papel importantíssimo da ciência nesse trabalho foi na caracterização dos solos da região. Profissionais da biologia, geografia e agronomia formaram uma equipe para pesquisar bancos de dados, executar trabalhos em campo e fazer um mapeamento digital combinando expertise em solos, cartografia e geoprocessamento. Foram visitados mais de 220 pontos da região para a identificação e descrição morfológica dos solos e da paisagem de ocorrência.

Por fim, ainda foi realizada uma expedição de campo para validação do mapa de solos, visando prover uma medida quantitativa da sua acurácia, o que raramente é realizado. Mais de 70 pontos aleatoriamente distribuídos foram visitados, e os tipos de solos identificados nesses locais foram depois comparados com os do mapa, chegando-se a uma acurácia superior a 90%. O trabalhou resultou na delimitação da região que seria reconhecida com o selo Altos de Pinto Bandeira, representada no mapa abaixo.

Desafio para os produtores

“Não foi uma construção fácil. Com o decorrer dos trabalhos, a dedicação dos pesquisadores motivou o grupo a se unir nas definições técnicas importantes e na busca de um produto distinto, seguindo regras claras e metas a serem alcançadas e não apenas tentando adaptar à realidade de cada vinícola,” pontua Marco Salton, da Vinícola Valmarino, que foi o representante técnico da Associação dos Produtores de Vinho de Pinto Bandeira (Asprovinho) no projeto com a Embrapa. Ele relata que uma das maiores dificuldades era encontrar tempo dos técnicos para as discussões necessárias para as tomadas de decisão, já que foram necessárias quase 30 reuniões.

Salton relata que a união do grupo e o foco na busca pela denominação de origem foram fundamentais para que o grupo fosse implementando as mudanças necessárias. A condução das videiras no sistema espaldeira, o controle na produção e aquisição de equipamentos, como a prensa pneumática, são alguns exemplos que exigiram grandes investimentos dos associados, necessários para o reconhecimento. O escritório Barcellos Marcas apoiou a Asprovinho no processo de registro da DO junto ao INPI.

“As pesquisas demonstraram que os espumantes da DO Altos de Pinto Bandeira apresentam borbulhas finas e uma delicada e persistente espuma, com notas aromáticas diversas – do frutado à especiarias, um gosto nítido e agradável, refrescante e de média-longa persistência”, detalha o pesquisador Mauro Zanus. Ele explica que em função dos vinhos-base bem elaborados, com uma adequada composição de acidez natural, é possível promover um maior contato com as leveduras (envelhecimento ‘sur lees’) na segunda fermentação na garrafa, adicionando notas de maior complexidade de aroma e sabor.

O renome da região pesa

“Uma etapa importante, que reforça a qualificação para uma DO são os elementos de renome para o espumante natural. Neste caso, todo o trabalho de estruturação da Indicação de Procedência deu essa base”, destaca a professora Ivanira Falcade, pesquisadora aposentada da Universidade de Caxias do Sul. Ela reforça que foi possível reunir notícias de variados meios de comunicação, incluindo referências na mídia especializada; documentos da participação das vinícolas em eventos e feiras; prêmios obtidos em concursos, além de evidenciar a infraestrutura de enoturismo, que tem recebido visitantes de forma crescente.

“A conquista da DO dos Altos de Pinto Bandeira é uma entrega da pesquisa que agrega valor aos produtos vitivinícolas brasileiros e à comunidade do entorno, pois atrai mais turistas que querem conhecer a denominação de origem de espumantes”, pontua o chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho, Adeliano Cargnin. Ele destaca que cada projeto de Indicação Geográfica de vinhos, reconhecida pelo INPI, traz um grande impacto econômico para o Brasil inteiro, pois atrai a atenção também dos consumidores estrangeiros.

Para Wellington Gomes dos Santos, da Coordenação de Indicação Geográfica de Produtos Agropecuários do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), todo reconhecimento oficial de uma Indicação Geográfica, especialmente uma de vinho, é resultado de um grande trabalho construído coletivamente, que envolve produtores, universidades e entidades públicas de pesquisa e extensão rural. “É fundamental contarmos com instituições, como a Embrapa Uva e Vinho, na coordenação de estudos técnicos. Eles são imprescindíveis para embasar bem a documentação que justificará o registro de uma IG”, destaca.

Ele complementa que o Instrumento Oficial de Delimitação (IOD) é um dos documentos exigidos pelo INPI quando do pedido de registro de uma Indicação Geográfica (IG) e seu conteúdo deve versar sobre a fundamentação técnica que embasa a delimitação geográfica, apresentada de acordo com a espécie de Indicação Geográfica requerida, e elaborado em concordância com as normas do Sistema Cartográfico Nacional. “É importante que a área delimitada da IG apresente coerência e conformidade com os critérios previstos de acordo com a modalidade da IG (Indicação de Procedência ou Denominação de Origem)”, pontua.

No caso da DO Altos de Pinto Bandeira, a professora Ivanira Falcade, que atuou na delimitação geográfica, explica que os critérios considerados para a definição da área envolveram estudos georreferenciados de zoneamento, incluindo a altitude, a declividade, o clima, a geologia, o solo, o uso e cobertura do solo, entre outros. “Trata-se de um território único e exclusivo, no qual os espumantes naturais refletem as características da geografia da região, dos fatores naturais como as rochas e solos; o patamar com altitude situado entre 520 até 770 metros, o que contribui para temperaturas amenas (médias menores que o entorno), inclusive no período de maturação das uvas, e brisa frequente; e dos fatores humanos, como as variedades autorizadas, o sistema de condução vertical (espaldeira), os limites de produtividade, entre diversas outras práticas vitícolas e enológicas, que resultam em espumantes que expressam um saber fazer específico”, explica.

Para o presidente da Asprovinho, Daniel Geisse, as regras estabelecidas para a obtenção do selo “irão permitir extrair ao máximo as características únicas e privilegiadas que o terroir local pode oferecer na elaboração de espumantes de alto padrão. Isso deverá gerar cada vez mais valor aos produtos que detenham essa DO.”

Tipo de trabalho recente no Brasil

Segundo destaca Daniel Panizzi, presidente da União Brasileira de Vitivinicultura, as Indicações Geográficas no Brasil ainda são muito recentes, quando comparadas à primeira DO concedida ao vinho do Porto, no século 18. No entanto, esse reconhecimento tem demonstrado ser um trabalho muito importante para o desenvolvimento do setor vitivinícola brasileiro.

Nosso País, de tamanho continental, possui muitos terroirs, e para um desenvolvimento ordenado e de qualidade é fundamental entendermos quais variedades de uva melhor se adaptam em cada região. Precisamos entender como elas se comportam/maturam conforme as condições de solo e clima do lugar. As IGs são fundamentais para isso. Uma uva de qualidade, dará origem a um produto de qualidade. Além disso, as DOs regulamentam não só a produção de uva, mas também reforçam a legislação e, por muitas vezes, acabam sendo ainda mais rígidas. O resultado disso, é o vinho na taça atingindo padrões de alta qualidade e garantindo que os processos estabelecidos sejam cumpridos, levando produtos conformes com o selo de controle ao consumidor.

“A DO Altos de Pinto Bandeira é um marco para o Espumante Brasileiro. Um grande passo para que nossos espumantes sejam ainda mais reconhecidos mundialmente”, segundo Panizzi. Ele destaca que desde a IP Pinto Bandeira, são praticamente 20 anos de análise de todas as possíveis variantes da região, para assim chegar em um Caderno de Especificações Técnicas de acordo com as características identificadas em todo esse tempo de acompanhamento e estudo, valorizando a tipicidade local.

Tanto os produtores viticultores e vinicultores atualmente estabelecidos na região, quanto futuros, poderão se beneficiar desse ativo de propriedade industrial. Para a Serra Gaúcha, a conquista reforça a sua projeção nacional na produção de espumantes.

As regras para um legítimo “Altos de Pinto Bandeira”

Somente poderão receber o selo da DO Altos de Pinto Bandeira  os espumantes naturais elaborados com as uvas Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico cultivadas dentro da região delimitada. São 65km2 de área contínua, situada nos municípios de Pinto Bandeira (77%), Farroupilha (19%) e Bento Gonçalves (4%). A elaboração dos produtos também deverá ser realizada dentro da área delimitada, sendo que serão elaborados pelo método tradicional no qual a segunda fermentação acontece dentro da garrafa.

A Denominação de Origem permite aos produtores produzir o produto de forma coletiva, promovendo a sua qualidade, com garantia de autenticidade para colocar no mercado consumidor, já que eles devem ter uma atestação de conformidade que garanta que os processos de produção foram cumpridos. São 25 requisitos específicos para o produto da DO, entre eles:

1 – Cultivares autorizadas: Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico.

2 – Origem das uvas: as uvas devem ser cultivadas 100% na área geográfica delimitada da DO Altos de Pinto Bandeira.

3 – Sistema de Condução: espaldeira.

4 – Produtividade: limite máximo de 12 t/ha. A colheita mecânica é proibida para as uvas destinadas à DO. A maturação das uvas para colheita segue padrões da lei do vinho.

5 – Elaboração: os espumantes com DO somente podem ser elaborados pelo Método Tradicional (segunda fermentação exclusivamente na garrafa)

6 – O tempo de tomada de espuma na segunda fermentação deve ser de no mínimo 12 meses, podendo chegar a vários anos.

7 – Quanto ao teor de açúcar residual estão autorizadas as classes Nature, Extra-Brut, Brut, Sec e Demi-Sec.

8 – Alguns itens sobre os processos enológicos:

A prensagem deve ser feita com as uvas inteiras.

É permitido o uso de barricas de carvalho na primeira fermentação que resulta no do vinho base para espumante.

Os vinhos base para espumante devem ter no máximo cinco anos, contados a partir da data de término da respectiva safra de uva.

O vasilhame autorizado é, exclusivamente, o de garrafas de vidro nos volumes 375mL, 750mL, 1,5 L e 3 L.

Padrões de Identidade e Qualidade Organoléptica do Produto: espumantes da DO devem ser aprovados em avaliação sensorial realizada pela Comissão de Degustação, gerida pelo Conselho Regulador da DO.

Os espumantes da DO Altos de Pinto Bandeira quando safrados, devem conter, no mínimo, 85% de vinho base da safra mencionada.

O rótulo principal deverá conter a identificação do nome geográfico Altos de Pinto Bandeira, seguido da expressão Denominação de Origem. A rotulagem também deverá incluir o Selo de Controle numerado, especificando o número do lote e da respectiva garrafa.

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