segunda-feira, 24 de junho de 2024

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Pesquisador da Unesp é o primeiro brasileiro a receber homenagem da Sociedade Internacional de Tecnologia de Embriões

Tags: ciência, embriões, fertilização in vitro, homenagem

Este mês, o veterinário e professor aposentado da Unesp Enoch Borges de Oliveira Filho será homenageado com o prêmio Pioneer Award ofertado pela International Embryo Technology Society (IETS). A IETS é uma entidade internacional que reúne pesquisadores e profissionais ligados à embriologia e reprodução animal. O prêmio é concedido anualmente como forma de reconhecer indivíduos que fizeram contribuições seminais ao desenvolvimento da área e esta é a primeira vez que ele será concedido a um pesquisador brasileiro. A cerimônia de entrega vai ocorrer no próximo encontro mundial da entidade, que ocorrerá entre 16 e 19 de janeiro na cidade de Lima, no Peru.

“Estou com 78 anos de idade e aposentado da Unesp já há 26 anos, por isso a notícia desta homenagem foi completamente inesperada”, diz o professor. Ele ingressou em 1981 como docente na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias de Jaboticabal (FCAV), no câmpus de Jaboticabal, onde permaneceu até o fim da carreira. “Na minha trajetória desenvolvi um trabalho que foi muito bem recebido no exterior e fico feliz de ter esse reconhecimento na área de tecnologia de embriões”, acrescenta.

FIV no Brasil

De fato, Oliveira Filho dedicou sua carreira a desenvolver e disseminar entre pesquisadores brasileiros técnicas inovadoras de reprodução animal que até hoje impactam positivamente a indústria. Foi no laboratório do câmpus de Jaboticabal, no início dos anos 1990, que o pesquisador adaptou para o contexto brasileiro a biotécnica da fertilização in vitro (FIV), com a qual ele teve o primeiro contato durante um estágio de pós-doutorado na Dinamarca, em 1988, e que estava se desenvolvendo na Europa.

Segundo o mais recente relatório produzido pela International Embryo Technology Society, no ano de 2013 o Brasil produziu mais de 366 mil embriões bovinos a partir da técnica de FIV. Isso representa mais de 70% do total de procedimentos desta classe realizados em todo o mundo.

Entre as principais vantagens do uso da fertilização in vitro está a possibilidade de acelerar a produção de bezerros com características genéticas superiores, possibilitando melhorar a qualidade do rebanho num tempo inferior ao chamado processo de monta natural. Grosso modo, após a coleta dos oócitos (células sexuais femininas) das fêmeas previamente selecionadas, o material é mantido em laboratório até chegar ao ponto de maturação, quando então é colocado em um meio propício para fecundação por espermatozoides de machos também selecionados.

Embora o veterinário tenha aprendido todo o passo a passo da FIV durante seu estágio na Europa, a adaptação do procedimento à pecuária brasileira enfrentou obstáculos. “Nosso rebanho apresenta diferenças em relação aos de países da Europa ou mesmo dos Estados Unidos. Ele é composto principalmente pelo zebu, um tipo de gado que é oriundo da Índia e que, por ser mais resistente ao calor, se adaptou muito melhor ao Brasil que os animais de clima temperado”, explica o pesquisador. A natureza desses animais, entretanto, “é muito delicada, ainda mais quando se fala especificamente na fertilização do processo de fecundação”.

Mesmo fazendo uso dos mesmos equipamentos e das mesmas técnicas aprendidas e empregadas na Europa, Oliveira Filho passou um ano sem conseguir repetir, no Brasil, os resultados obtidos no pós-doutorado. Para produzir o primeiro animal a partir da FIV, foi necessário um esforço coletivo de pesquisadores de diferentes partes do mundo. No início dos anos 1990, já de volta do estágio de pós-doutorado, o pesquisador organizou um simpósio internacional sobre reprodução animal em Jaboticabal em que reuniu os principais pesquisadores da área de embriologia que conheceu no exterior e que também trabalhavam com a técnica.

Após o evento, alguns participantes permaneceram na cidade para um “intensivo” de experimentos em que buscaram decifrar os desafios para aplicar, de forma eficiente, a técnica no gado zebu. O esforço coletivo valeu a pena e no início de 1993 nasceram os primeiros bezerros frutos da FIV no Brasil. “Aqueles foram dias de uma troca de informações preciosíssima. O simpósio deu origem a um livro que dirigiu a ciência brasileira na área de reprodução animal por anos”, diz, referindo-se ao livro Manipulating the Mammalian Embryo, de 1990, que foi editado pela própria FCAV, de Jaboticabal.

Disseminação da técnica

Uma vez solucionado o mistério, o professor de Jaboticabal passou a desempenhar um outro papel importante no cenário da pecuária brasileira, assumindo a disseminação deste conhecimento entre pesquisadores e produtores pelo país. “Naquela época a FCAV era uma escola ainda jovem, mas com turmas muito animadas e engajadas cientificamente”, recorda. “Foi uma fase muito boa, mas que também passou muito rápido.” Nesse ambiente era frequente a troca de experiências entre pesquisadores brasileiros e de outros países da região que compartilhavam características semelhantes na pecuária. “Em encontros científicos falávamos das diferenças da Europa para o Brasil e das particularidades do gado na América do Sul. Depois, cada pesquisador retornava a sua região ou país de origem para disseminar e adaptar as técnicas”, explica.

Oliveira Filho explica que desde o nascimento dos primeiros bezerros, em 1993, outras instituições e pesquisadores se debruçaram a fim de aprimorar a técnica e melhorar os resultados. Ao mesmo tempo, novos profissionais se especializaram na FIV, ampliando a mão de obra disponível no campo. Hoje, a FIV é uma tecnologia difundida nacionalmente e cada vez mais acessível, com o surgimento de empresas especializadas e com o estabelecimento de um mercado em pleno crescimento. Para o pesquisador, não é exagero dizer que a FIV é um dos fatores que colaboram para o contínuo melhoramento genético do rebanho brasileiro, seja para corte ou produção do leite.

Depois de se aposentar, Oliveira Filho continuou trabalhando com a FIV, montando uma fazenda no Tocantins em que aplicou o conhecimento que acumulou na produção de animais de alta qualidade genética. Hoje continua se dedicando à fazenda, mas já não trabalha com animais. “A atividade da pecuária no Brasil é muito ingrata. É exigente fisicamente, você sofre acidentes e nem sempre tem o trabalho reconhecido”, conta. “Fico feliz por ter sido escolhido entre tantos pesquisadores da Europa e dos Estados Unidos e compartilho a homenagem com meus colegas brasileiros que estão na batalha. Não temos um Prêmio Nobel para a área, mas é como se este prêmio fosse um Nobel. Ele mostra que é possível fazer as coisas bem feitas no Brasil sem pensar necessariamente no dinheiro.”

Fonte: Unesp

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