
Cadeia produtiva da cebola enfrenta desafios e busca soluções em seminário nacional
A cadeia produtiva da cebola esteve no centro dos debates de um dos mais importantes encontros do setor no país. Entre os dias 7 e 9 de abril, o município de Ituporanga (SC), reconhecido como a Capital Nacional da Cebola, sediou a 36ª edição do SENACE 2026 – Seminário Nacional da Cebola, em conjunto com o XXVII Seminário da Cebola do Mercosul.
Promovido por diversas entidades, o evento consolidou-se como o principal fórum técnico da cadeia produtiva da cebola no Brasil. A iniciativa reuniu representantes da pesquisa, extensão rural, produção e mercado, fortalecendo a integração entre países e promovendo o intercâmbio de conhecimento entre produtores, técnicos, pesquisadores, estudantes, empresas e agentes públicos e privados. Nesta edição, participaram cerca de 900 pessoas e 34 empresas expositoras, que apresentaram inovações, tecnologias e tendências para o setor.
No cenário nacional, a cadeia produtiva da cebola enfrenta um período de forte instabilidade econômica. O Valor Bruto da Produção, indicador que estima a receita gerada nas propriedades rurais, caiu de R$ 4,9 bilhões em 2024 para R$ 1,08 bilhão em 2025 — uma retração expressiva de 78%, segundo dados da CNA. A área cultivada no Brasil, estimada pelo Cepea, é de aproximadamente 44 mil hectares, distribuídos principalmente entre as regiões Sul; Cerrado (Minas Gerais e Goiás) e São Paulo; e Nordeste.
Apesar da produção interna relevante, o país ainda importa, especialmente entre os meses de março e junho. Em 2025, foram importadas cerca de 137,8 mil toneladas de cebola, totalizando US$ 24,8 milhões, com destaque para Argentina e Chile como principais fornecedores (Comex).

A cebolicultura se caracteriza por sua elevada capacidade de geração de empregos, especialmente no setor primário, devido à intensa demanda por mão de obra em todas as etapas produtivas. Trata-se de uma cadeia complexa, composta majoritariamente por pequenos produtores e marcada por grande diversidade regional. Fatores climáticos, tecnológicos, estruturais e de mercado influenciam diretamente a produção, e essa diversidade é essencial para garantir o abastecimento contínuo ao longo do ano, graças à complementaridade entre as regiões produtoras.
Santa Catarina mantém-se como o principal polo da cebolicultura brasileira, destacando-se pela sólida base produtiva e pela elevada capacidade de armazenamento pós-colheita. Para a safra de inverno 2025/26, estima-se uma área plantada de 19.120 hectares, com leve redução em relação ao ciclo anterior (Epagri). Em contrapartida, a produtividade média apresentou crescimento significativo, alcançando 31,47 toneladas por hectare. Com isso, a produção estadual deve atingir aproximadamente 601,7 mil toneladas, reforçando o papel estratégico do estado no abastecimento nacional, especialmente nos períodos de verão e início do outono.
Dentro desse contexto, o município de Ituporanga lidera a produção estadual, com cerca de 4.800 hectares cultivados e produtividade superior à média catarinense. A produção local é predominantemente conduzida por agricultores familiares, com uso ainda expressivo do sistema tradicional de mudas e transplantio, embora avanços na mecanização e na adoção de tecnologias venham sendo observados gradualmente. A região do Alto Vale do Itajaí consolida-se, assim, como o principal eixo produtivo da cebola no país, combinando escala, estabilidade e capacidade de armazenamento.

Apesar da relevância econômica e social do setor, Santa Catarina enfrenta atualmente um cenário de crise. A queda nos preços da cebola, associada ao aumento dos custos de produção e à ocorrência de uma supersafra, tem provocado prejuízos significativos aos produtores nos últimos dois anos. Diante desse quadro, diversos municípios decretaram situação de emergência. Medidas como ampliação do acesso ao crédito, renegociação de dívidas e apoio à comercialização vêm sendo discutidas e implementadas para mitigar os impactos. Além disso, a política de importação, especialmente de países vizinhos, segue como ponto de debate no setor, assim como a necessidade de aprimoramento das técnicas de secagem e armazenamento dos bulbos.
Paralelamente ao seminário, Ituporanga também sedia a 28ª Festa Nacional da Cebola, realizada entre os dias 7 e 12 de abril, no Parque do Cerro Negro. O evento reúne atrações culturais e técnicas, incluindo shows, gastronomia típica, feira multissetorial e atividades tradicionais, como o tratoraço. A expectativa é de um público superior a 100 mil pessoas, com forte impacto na economia local, especialmente no turismo e na rede hoteleira. Consolidada como uma das principais celebrações do setor no Brasil, a festa reforça a importância econômica, social e cultural da cebola para a região.
Warley Marcos Nascimento – Pesquisador da Embrapa Hortaliças e Presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH); E-mail: [email protected]
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