
Exportações de Hortaliças: Lições da Crise Tarifária e Caminhos para o Futuro
O Brasil produz cerca de 20 milhões de toneladas de hortaliças por ano, quase totalmente destinadas ao consumo interno. Diferentemente das commodities que exportamos — como soja, milho, café, açúcar, carnes e suco de laranja — o mercado externo para hortaliças brasileiras é bastante restrito, concentrando-se em poucas espécies. Entre elas, destacam-se o melão e a melancia, popularmente conhecidos como frutas, mas classificados como hortaliças por suas características botânicas, isto é, por apresentarem ciclo curto e serem plantas herbáceas. Em 2024, as exportações dessas duas cadeias produtivas alcançaram US$ 185 milhões (melão) e US$ 73 milhões (melancia). Outras hortaliças, como gengibre, batata-doce, inhame (incluindo cará e taro), abóbora e produtos derivados de pimentas — além de batata, cenoura, tomate, entre outras — também são exportadas, variando conforme o ano, porém em volumes e valores menores. Por exemplo, em 2024, o país exportou US$ 12 milhões de batata-doce, US$ 4 milhões de abóbora, US$ 237 mil de páprica, US$ 120 mil de açafrão da terra (cúrcuma), dentre outros (Comex Stat 2025).

Desde 6 de agosto de 2025, algumas dessas hortaliças, especialmente o gengibre e o inhame, que possuem forte presença no mercado externo (com exportações de US$ 18 milhões e US$ 9,4 milhões para os EUA em 2024, respectivamente), passaram a enfrentar uma tarifa de importação de 50% para ingressar nos Estados Unidos — segundo maior destino do gengibre e principal destino do inhame. A medida impactou diretamente essas duas cadeias produtivas, enquanto as demais hortaliças exportadas concentram seus principais mercados na União Europeia.
O consumo interno de gengibre e inhame é limitado, não havendo capacidade para absorver grandes excedentes em caso de queda nas exportações. Como consequência, a nova tarifa norte-americana gerou efeitos imediatos no mercado. No caso do gengibre, houve queda nos preços pagos aos produtores; redirecionamento de cargas originalmente destinadas aos EUA para a Europa, pressionando os preços nesse mercado; além de cancelamentos e adiamentos de pedidos justamente no início da safra. A situação é ainda mais delicada para os pequenos produtores, que dependem fortemente da cultura do gengibre como principal fonte de renda. Estima-se que mais de 3.500 famílias em municípios do Espírito Santo foram afetadas, além de trabalhadores contratados por empresas exportadoras. Uma eventual redução no volume exportado também pode resultar em diminuição de empregos e queda na renda local.

Felizmente, nos últimos dias, a suspensão da tarifa trouxe um alívio para o agronegócio como um todo e, especialmente, para essas cadeias produtivas. No caso do gengibre, porém, o fim da tarifa coincidiu com o encerramento da safra, o que limitou as oportunidades de recuperação neste ano.
Essa difícil situação, ocorrida nos últimos meses, pode abrir espaço para oportunidades e melhorias na competitividade de algumas cadeias. Para enfrentar esse e outros possíveis cenários futuros, o setor de olericultura precisa:
* diversificar produtos e mercados, ampliando sua presença na União Europeia, na Ásia e em novos destinos;
* apostar em nichos sustentáveis e/ou orgânicos;
* agregar valor em produtos processados;
* destacar atributos de qualidade e origem (como segurança do alimento, certificação e rastreabilidade) para diferenciar seus produtos no mercado global;
* investir em logística, tecnologias de refrigeração e processamento que prolonguem a vida útil das hortaliças;
* demonstrar capacidade de atender à demanda externa em volume, regularidade e qualidade;
* aprimorar a gestão das propriedades rurais;
* fortalecer a organização setorial por meio de cooperativas;
* e, claro, manter preços competitivos.
Por fim, a tarifa de 50% imposta pelos EUA representou um desafio sem precedentes para os produtos brasileiros, mas também serviu como um teste à capacidade de adaptação e inovação de determinadas cadeias de hortaliças. Preservar o protagonismo do Brasil no cenário internacional exigirá, cada vez mais, ações coordenadas, estratégias de mercado e políticas de apoio que assegurem a sustentabilidade do setor olerícola nacional.
Warley Marcos Nascimento – Pesquisador da Embrapa Hortaliças e Presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH)
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