
Fortalecimento da cadeia produtiva de ervilha no país reduz a dependência externa de grãos secos
A ervilha é uma leguminosa da família Fabaceae, pertencente à espécie Pisum sativum L. Estudos filogeográficos, utilizando marcadores moleculares, indicam que o gênero Pisum se difundiu a partir do centro de origem (a região do Oriente Médio) para o leste, até o Cáucaso, Irã e Afeganistão, e para o oeste, até o Mediterrâneo. A cultura é bem significativa para a história, pois existem relatos bíblicos e papel central nas pesquisas de Gregor Mendel, o criador da genética moderna.

Hoje as ervilhas continuam tendo sua importância, principalmente na alimentação humana, por ser um excelente alimento, pois destacam em sua composição, elevados teores de proteínas, fibras, vitaminas do complexo B (tiamina, riboflavina e niacina), minerais (ferro, cálcio, potássio e fósforo), além dos carotenoides luteína, β-caroteno e violaxantina. O teor do aminoácido essencial lisina faz com que a ervilha seja um componente importante em dietas balanceadas. Apresenta ainda uma maior digestibilidade (90%) quando comparada ao feijão (73%). No Brasil, a ervilha é consumida principalmente na forma de grãos secos reidratados e enlatados ou como ervilha partida. Nos últimos anos, as ervilhas estão participando do mercado de suplementos de proteínas, sendo encontradas em uma gama de produtos, desde queijos e substitutos de produtos veganas até shakes, iogurtes, “leite” e barras de cereais, entre outros.
Para atender o consumo crescente de ervilha, o Brasil tem importado anualmente grãos secos da Argentina e Canadá. No entanto, observa-se nos últimos anos, uma redução na importação destes grãos. Em 2015, foram importadas 41,5 mil toneladas, ao custo de 23,3 milhões de dólares (Comex Stat, 2025). Já em 2024, este volume caiu para 22,7 mil toneladas, com gasto de 14 milhões de dólares - uma redução de cerca de 45% no volume, e economia anual de 9,3 milhões de dólares em divisas.
O avanço e o fortalecimento da cadeia produtiva de ervilha seca no país e, consequentemente, com o aumento da área cultivada, tem gerado emprego, renda e autonomia tecnológica. A produção interna é mais rentável quando comparada com o produto importado e tem alcançado elevadas produtividades, além de ter uma melhor qualidade e menor risco de resíduos contribuindo para a segurança do alimento.

Um importante fator para o fortalecimento da cadeia produtiva de ervilha seca no país foi a disponibilização de cultivares adaptadas às condições edafo-climáticas do Brasil, notadamente em regiões mais secas com maiores altitudes no Brasil Central. Apesar da relevância da leguminosa, poucos e consistentes trabalhos de melhoramento genético têm sido conduzidos por empresas públicas e privadas no Brasil. A menor lucratividade das cultivares de polinização aberta desestimula o investimento por parte das empresas de sementes, diferentemente de outras commodities com sementes híbridas. A Embrapa Hortaliças foi pioneira nos programas de desenvolvimento genético de ervilha e é uma das poucas instituições públicas que vem trabalhando com esta espécie, sendo que já disponibilizou, ao mercado, várias cultivares de ervilha dos tipos seca, verde e forrageira. Atualmente, duas grandes empresas processadoras de ervilha seca (reidratada) no Brasil utilizam exclusivamente cultivares disponibilizadas pela Embrapa Hortaliças em suas lavouras.
Com referência ao elo industrial da cadeia produtiva deste segmento, a Embrapa Hortaliças continua com seus esforços em intensificar a geração de cultivares com atributos diferenciados tendo como foco a sustentabilidade econômica e ambiental dos cultivos e a segurança alimentar dos consumidores, bem como aqueles que atendam as expectativas de fornecimento e padronização da matéria-prima para produtos processados. Para isso, novas cultivares de ervilha estão a caminho, obtidas, inclusive, pelo emprego de ferramentas de biologia molecular e seleção assistida por marcadores moleculares. Em adição a esses fatores, aumenta ainda a exigência do consumidor para uma elevação da qualidade e conveniência das hortaliças, além de novas dietas. Assim, o desenvolvimento de novos produtos tem focado em gerar alternativas para as proteínas de origem animal. A Embrapa Hortaliças se mantém atenta às oportunidades, como nichos específicos de mercado, como por exemplo, produtos “plant based” utilizando cultivares mais específicas como aquelas ervilhas de grãos amarelos.
Finalmente, graças aos avanços do conhecimento, gerados pelas instituições brasileiras de pesquisa, a nossa agricultura tem sido capaz de abastecer o mercado interno e ainda exportar para vários países. Um exemplo ilustrativo é o “case” do cultivo de ervilha, onde o apoio à pesquisa científica pública é fundamental no sentido de impulsionar a competitividade e a sustentabilidade da agricultura brasileira.
Warley Marcos Nascimento – Pesquisador da Embrapa Hortaliças e Presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH), e-mail – [email protected]
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