
“Mar de Plástico” em Almería, Espanha, é referência em sustentabilidade na produção de hortaliças

Uma recente Missão Técnica à Espanha, organizada pela Associação Brasileira de Horticultura (ABH) em parceria com o Instituto Murciano de Investigación y Desarrollo Agrario y Medioambiental (IMIDA), reuniu pesquisadores, professores, produtores e técnicos de diversas instituições brasileiras. O foco da missão foi a região de Múrcia, com destaque para Almería — conhecida como o “Mar de Plástico” — que abriga cerca de 34 mil hectares de estufas dedicadas à produção de frutas e, principalmente, hortaliças. Durante a semana, os participantes visitaram empresas públicas e privadas, além de cooperativas, para conhecer de perto o modelo agrícola intensivo adotado na região.
Segundo dados da Consejería de Agricultura, Pesca, Agua y Desarrollo Rural, Almería produziu cerca de 4 milhões de toneladas de hortaliças em 2024, com valor estimado em 3,7 bilhões de euros. As principais culturas incluem pimentão, tomate, melancia, pepino e abobrinha, cultivadas em uma área total de 63 mil hectares — dos quais 34 mil são de cultivo protegido. Almería também se destaca como polo de produção orgânica, com destaque para tomate, pepino, pimentão, abobrinha, melancia, berinjela, melão e vagem. Grande parte dessa produção é destinada ao mercado interno espanhol, mas também é amplamente exportada para países como Alemanha, França, Países Baixos e Reino Unido.

Fatores de Sucesso
Localizada no sudeste da Espanha, Almería era historicamente uma das regiões mais pobres do país. No entanto, sua elevada incidência de radiação solar e a adoção de tecnologias avançadas transformaram-na em um centro global de produção de hortaliças sob cultivo protegido. Os produtores locais superaram desafios recorrentes e investiram em inovações como:
* Estufas automatizadas com controle de ventilação, umidade e temperatura;
* Telas climáticas para proteção e gestão da luz solar;
* Sistemas hidropônicos e irrigação por gotejamento;
* Tecnologias informatizadas de irrigação;
* Aproveitamento da água da chuva e dessalinização de águas salobras.
Essas soluções visam aumentar a produtividade, melhorar a qualidade dos produtos e garantir a sustentabilidade econômica e ambiental, mantendo a competitividade do modelo agrícola local.
Desafios e Soluções Sustentáveis
O principal desafio identificado durante a missão foi a crise hídrica. Com uma média anual de apenas 300 mm de chuva, a escassez de água compromete a sustentabilidade da agricultura intensiva. O esgotamento dos aquíferos e a intrusão de água salgada têm gerado restrições no abastecimento, exigindo soluções criativas e eficientes.
Além das tecnologias de irrigação, destaca-se o uso intensivo do controle biológico de pragas. Com alta pressão de pragas na região, mais de 90% das áreas de cultivo protegido utilizam inimigos naturais, reduzindo significativamente o uso de defensivos químicos e atendendo às exigências de qualidade e sustentabilidade ambiental.

Outra técnica amplamente adotada é a enxertia, especialmente em espécies suscetíveis a doenças de solo. Essa prática aumenta a resistência das plantas, melhora a produtividade e contribui para a sanidade dos cultivos.
Inspiração para o Brasil
O modelo de Almería serve como referência para produtores de hortaliças em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. A missão técnica proporcionou aos participantes uma oportunidade única de aprendizado, troca de experiências e identificação de novas possibilidades de desenvolvimento profissional, científico e tecnológico em prol de uma agricultura mais sustentável e inovadora.
Warley Marcos Nascimento, pesquisador da Embrapa Hortaliças e presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH)
E-mail: [email protected]
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