
O ZARC e as Hortaliças: Tecnologia e Gestão de Riscos Frente às Mudanças Climáticas
Já não é segredo que as mudanças climáticas têm impactado severamente a agricultura global. O setor enfrenta o aumento das temperaturas médias e padrões de chuva cada vez mais irregulares, que resultam em períodos críticos de déficit hídrico ou precipitações excessivas e inundações. Esses extremos não afetam apenas a produtividade, mas comprometem a biodiversidade e elevam a incidência de pragas e doenças.

Para mitigar esses efeitos, o agronegócio tem investido em tecnologias de precisão, monitoramento de dados e práticas sustentáveis que buscam fortalecer a resiliência dos cultivos. Nesse cenário, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) surge como uma ferramenta estratégica indispensável.
O que é o ZARC e quais seus benefícios?
Desenvolvido pela Embrapa sob a coordenação do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o ZARC utiliza séries históricas de clima, características de solos e as exigências hídricas de cada cultura para identificar as regiões e épocas de menor risco para o plantio. A ferramenta entrega dois benefícios fundamentais ao produtor rural:
1. Gestão de Risco e Segurança: Identifica janelas de semeadura ideais, reduzindo a probabilidade de perdas por eventos climáticos.
2. Acesso a Crédito e Seguro: O cumprimento das diretrizes do ZARC é requisito obrigatório para o financiamento rural e para a contratação de seguros agrícolas e políticas públicas (como o Proagro).
Para tornar essa tecnologia ainda mais acessível, a Embrapa e o MAPA disponibilizam o aplicativo ZARC Plantio Certo (Android e iOS), que permite consultas dinâmicas e rápidas na palma da mão.

O Desafio e a Expansão nas Hortaliças
Embora o ZARC já esteja consolidado há décadas para as grandes culturas (commodities), abrangendo mais de 40 espécies, sua aplicação na olericultura era limitada. Até pouco tempo, apenas a melancia contava com portarias específicas.
A complexidade dos sistemas de produção de hortaliças e a diversidade biológica dessas espécies — que respondem de formas muito distintas aos estresses abióticos — explicam essa demora. Contudo, houve avanços recentes. Atualmente, o ZARC já contempla cadeias importantes como:
• Alho e Cebola
• Batata (mesa e indústria)
• Grão-de-bico e Melancia
No caso do grão-de-bico, uma cultura em expansão comercial no Brasil, o ZARC é vital para orientar a semeadura em novas fronteiras agrícolas, minimizando incertezas para quem deseja investir.
Conclusão: Informação como Insumo
Especialistas alertam que as perdas de hortaliças devido ao clima têm sido proporcionalmente mais drásticas do que nas grandes culturas, resultando em quebras de safra que elevam os preços ao consumidor final.
Expandir o ZARC para novas cadeias de hortaliças é o próximo passo lógico. No entanto, a tecnologia por si só não basta: é crucial que haja uma maior conscientização dos produtores sobre essa ferramenta gratuita. O planejamento baseado em dados não é apenas uma escolha técnica, é a garantia da viabilidade econômica da propriedade rural diante de um clima em constante transformação.
Leitura adicional
https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/783115/1/CNPHMUDAN.CLIMAT.GLOB.EAPROD.DEHOTAL.09.pdf
Warley Marcos Nascimento, pesquisador da Embrapa Hortaliças e Presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH)
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