
Por que o consumo de leguminosas de grãos secos deve crescer no Brasil — e por que isso importa para a saúde e a economia?
As novas diretrizes alimentares divulgadas recentemente pelo governo dos Estados Unidos reacenderam o debate global sobre o papel das proteínas na dieta. A atualização praticamente dobra a recomendação diária: de 0,8 grama para 1,2 a 1,6 grama de proteína por quilo de peso corporal. A mudança ganhou repercussão internacional e deve orientar ajustes em políticas públicas e hábitos alimentares em diversos países.
No Brasil, o impacto tende a ser mais simbólico — nosso “Guia Alimentar para a População Brasileira” já incentiva o consumo de alimentos in natura e de fontes proteicas de qualidade, ao mesmo tempo que desencoraja ultraprocessados. Ainda assim, o novo posicionamento norte-americano reforça uma tendência mundial: a busca por fontes de proteína mais acessíveis, saudáveis e sustentáveis. Entre elas, um grupo merece atenção especial: as leguminosas de grãos secos, como ervilha, lentilha e grão-de-bico.
Um hábito tradicional que perdeu força
O feijão é um símbolo da alimentação brasileira, presente em receitas icônicas como feijoada e feijão tropeiro, este último recentemente incluído no ranking internacional do TasteAtlas entre os cinco melhores pratos vegetais do mundo. Apesar dessa importância cultural, o consumo nacional de feijão tem caído nas últimas décadas. Segundo o Instituto Brasileiro do Feijão (IBRAFE), a busca por praticidade e alimentos prontos contribuiu para essa redução — tendência que se repete com outras leguminosas.

Por que apostar em ervilha, lentilha e grão-de-bico?
Nutricionistas e pesquisadores reforçam que as leguminosas de grãos secos são fontes completas e econômicas de proteína vegetal, além de fornecerem carboidratos complexos, fibras, vitaminas do complexo B e minerais como cálcio, magnésio, potássio e fósforo.
Outros benefícios:
Baixo índice glicêmico, importante para controle da glicemia.
Alta saciedade, auxiliando no controle de peso.
Possibilidade de substituição parcial da proteína animal.
Versatilidade na cozinha, tanto em pratos tradicionais quanto em produtos plantbased.
Opções para pessoas intolerantes ao glúten e/ou celíacas.
O grão-de-bico ainda se destaca por conter triptofano, precursor da serotonina — motivo pelo qual é apelidado de “grão da felicidade”.
Consumo cresce, mas o país ainda depende de importações
Apesar do potencial, o Brasil ainda produz pouco dessas três leguminosas e continua dependente de fornecedores internacionais. Em 2025, as importações somaram: US$ 14 milhões em ervilha, US$ 19,1 milhões em lentilha e US$ 8,9 milhões em grão-de-bico. No total, US$ 42 milhões. Essa dependência explica os preços elevados no varejo — entre R$ 20,00 e R$ 30,00 por quilo — e dificulta o acesso da população a alimentos reconhecidamente saudáveis.

Uma oportunidade para o agronegócio brasileiro
Especialistas defendem que fortalecer a produção nacional de leguminosas pode gerar ganhos relevantes: maior renda para agricultores; geração de empregos no campo; redução das importações; oferta de alimentos mais baratos e acessíveis ao consumidor; e, estímulo a dietas mais equilibradas e nutritivas. Com a ampliação das áreas cultivadas, o Brasil poderia abastecer o mercado interno e até mesmo disputar espaço no comércio internacional — cenário que já ocorre com os feijões brasileiros.
Alimentação saudável e desenvolvimento caminham juntos
A busca por alternativas proteicas é uma tendência mundial e deve se intensificar nos próximos anos. Para os especialistas, incentivar o consumo e a produção de leguminosas de grãos secos representa um avanço duplo: melhora a qualidade da alimentação da população e fortalece a economia nacional.
Em 2026, completam-se dez anos do Ano Internacional das Leguminosas, instituído pela ONU — um lembrete oportuno de que esses grãos simples e acessíveis podem desempenhar um papel estratégico na segurança alimentar e nutricional do país.
Leitura Adicional
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/publicacoes-para-promocao-a-saude/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf/view
https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1054423/hortalicas-leguminosas
Warley M. Nascimento – pesquisador da Embrapa Hortaliças e presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH), e-
mail: [email protected]
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