
Cadeia do Frio: O Elo Vital para a Eficiência da Horticultura Brasileira
Do plantio à colheita, a produção de hortaliças enfrenta desafios constantes, desde adversidades climáticas até pressões fitossanitárias. Contudo, o gargalo não termina no campo. As etapas pós-colheita — beneficiamento, armazenamento, transporte e comercialização — são críticas, frequentemente resultando em perdas que, no Brasil, podem ultrapassar 40% em determinadas culturas. As hortaliças folhosas, pela sua alta perecibilidade, exemplificam bem essa fragilidade em comparação às hortaliças de raízes e tubérculos.
Esses prejuízos decorrem, majoritariamente, do manejo inadequado, embalagens inapropriadas e deficiências logísticas. Nesse cenário, a cadeia do frio emerge como o fator determinante: a temperatura é, isoladamente, a variável que mais influencia a conservação e a vida útil dos produtos.

A Engrenagem da Eficiência
Uma cadeia do frio eficaz exige integração. Não basta refrigerar no destino; é preciso garantir o pré-resfriamento e o transporte climatizado, mantendo a temperatura ideal desde o campo até a gôndola. Esta estratégia não apenas prolonga o armazenamento, mas controla a taxa respiratória dos produtos e limita a proliferação de microrganismos, garantindo a segurança do alimento.
No clima tropical brasileiro, a refrigeração deixa de ser um diferencial para se tornar uma necessidade. Ela permite um planejamento de oferta mais robusto e amplia o raio de comercialização. Entretanto, ainda enfrentamos o contraste de um país de dimensões continentais onde muitos produtos percorrem longas distâncias em caminhões abertos e estradas precárias. A baixa integração entre os elos da cadeia — produtores, atacadistas e varejistas — compromete a manutenção dessa "linha de vida" térmica.
Barreiras e Alternativas
Embora consolidada em setores como o de lácteos e carnes, a cadeia do frio na horticultura ainda esbarra no alto custo de infraestrutura. Para pequenos e médios produtores, o investimento em câmaras frias e veículos refrigerados é um desafio, agravado pela instabilidade energética em diversas regiões.
Para superar esses obstáculos, o associativismo e o cooperativismo surgem como caminhos viáveis para diluir investimentos. Além disso, soluções como o uso de energia fotovoltaica nas propriedades e a terceirização logística (operadores logísticos especializados) podem democratizar o acesso ao frio.
Valor Agregado e Mercado Externo
O sucesso de produtos de maior valor agregado, como os minimamente processados e congelados (batatas, cenouras e ervilhas), já demonstra o poder da refrigeração plena. No mercado de exportação, o uso de contêineres refrigerados é o padrão rígido que viabiliza a competitividade brasileira no exterior, atendendo a exigências rigorosas de qualidade e frescor.

Conclusão
As perdas na cadeia produtiva não são apenas números financeiros; são impactos sociais e nutricionais. A depreciação qualitativa afeta cor, textura e sabor, reduzindo a rentabilidade do produtor — que muitas vezes absorve os prejuízos do varejo — e onerando o consumidor.
Investir na cadeia do frio, em tecnologia de monitoramento (sensores e IoT) e em políticas públicas de crédito rural é investir na soberania alimentar. Precisamos transformar a infraestrutura logística para que o lema do setor se concretize: fazer com que cada colheita, de fato, conte.
Warley Marcos Nascimento – Pesquisador da Embrapa Hortaliças e Presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH); e-mail:[email protected]
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