
Cores, sabores e saberes: o que está por trás do que chega ao seu prato
Apesar de um cenário econômico desafiador, marcado pelo aumento dos custos de produção e pelos impactos das mudanças climáticas, o setor de hortaliças vem surpreendendo pela sua notável resiliência. Mais do que resistir, ele prospera, gerando empregos, renda e alimentos de alta qualidade para a população. Nesse contexto, as hortaliças assumem um papel de destaque: com sua impressionante diversidade, deixam de ser apenas itens do cotidiano e passam a representar sistemas produtivos ricos, sustentáveis e cheios de potencial. Transformar essa diversidade em conhecimento, oportunidade econômica e conexão entre o campo e a sociedade é o próximo passo dessa evolução.

É com esse propósito que a Embrapa promove, entre os dias 23 e 25 de abril, a Feira Brasil na Mesa, realizada na Embrapa Cerrados, em Planaltina (DF). Com apoio institucional da Apex e do Sebrae, além da participação de diversos ministérios e órgãos públicos, o evento — aberto ao público — celebra a riqueza da diversidade alimentar brasileira. Mais do que uma exposição, trata-se de uma ponte entre produção, pesquisa, políticas públicas e consumo. A proposta é direta e poderosa: aproximar o campo da cidade. Ao permitir que o consumidor descubra quem produz, como produz e de onde vem o alimento, a iniciativa fortalece cadeias locais, valoriza saberes tradicionais e amplia o repertório alimentar da população.
Muito além de uma feira, o evento se apresenta como um verdadeiro retrato vivo do sistema alimentar brasileiro. Os visitantes têm a oportunidade de explorar uma ampla variedade de produtos, participar de degustações, seminários técnicos, vitrines vivas, experiências gastronômicas, apresentações culturais e uma feira livre de alimentos. A proposta é despertar o interesse pelo consumo de hortaliças, frutas e outros alimentos essenciais, incentivando o consumo local e regional e ampliando o reconhecimento do papel da ciência e das políticas públicas na alimentação. Ao mesmo tempo, o evento lança luz sobre a extraordinária riqueza alimentar do país, especialmente aquela cultivada pela agricultura familiar, por pequenos e médios produtores e por povos e comunidades tradicionais.

Entre os destaques, estão as cultivares de hortaliças da Embrapa — sobretudo aquelas originárias do continente americano, incluindo a região Andina — como batata-doce, mandioquinha-salsa, pimentas e tomate. O público também é convidado a descobrir novas possibilidades culinárias e produtos de valor agregado, como páprica, flocos de pimenta, geleias, doces, chips, caldos de legumes, farinhas, temperos, conservas e molhos variados, todos derivados das cultivares da Embrapa.
E não poderiam faltar as fascinantes Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), apresentadas como alternativas estratégicas para o futuro da alimentação. Almeirão-roxo, araruta, bertalha, inhame-cará, língua-de-vaca, mangarito, ora-pro-nóbis, peixinho-da-horta, taioba e tantas outras espécies revelam um universo de sabores, nutrientes e histórias que, ao longo do tempo, foram sendo esquecidos. Esse afastamento gradual está ligado à urbanização, à verticalização das cidades, à globalização e à padronização alimentar. No entanto, essas hortaliças representam verdadeiros tesouros da biodiversidade e da cultura alimentar brasileira. Cultivadas há séculos por povos indígenas, comunidades quilombolas e pequenos agricultores, carregam tradições, resistências e práticas sustentáveis fundamentais para a segurança alimentar. Esses saberes — que envolvem o uso da terra, o cultivo e o preparo dos alimentos — são essenciais para preservar a biodiversidade e promover sistemas alimentares mais equilibrados.
Apresentar toda essa diversidade ao público, ao mesmo tempo em que se estimula a economia local, se ampliam oportunidades para pequenos produtores e se valorizam os saberes tradicionais, torna a Feira Brasil na Mesa uma iniciativa exemplar. Mais do que isso, o evento evidencia que há ciência, tecnologia e políticas públicas por trás de cada alimento que chega à mesa. Compreender o que está por trás do prato é reconhecer o valor de quem produz, da terra que sustenta e do conhecimento — científico e tradicional — que transforma alimento em identidade. Ao unir ciência, cultura e produção, a Feira Brasil na Mesa reforça uma mensagem essencial: o futuro da alimentação está na diversidade — de cores, sabores e saberes.
Warley Marcos Nascimento - Pesquisador da Embrapa Hortaliças e Presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH); e-mail:[email protected]
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