quarta-feira, 29 de abril de 2026

Quando a horta vira petisco: do acompanhamento ao protagonismo no boteco
warley colunista horticultura conexão agro
Warley Marcos Nascimento
27/04/2026

Quando a horta vira petisco: do acompanhamento ao protagonismo no boteco

Quando pensamos nos petiscos clássicos dos bares brasileiros, aqueles que chegam fumegantes à mesa para acompanhar uma cerveja bem gelada ou a bebida preferida, é impossível não lembrar do torresmo crocante, da coxinha dourada, do pastel estalando, da calabresa acebolada, da mandioca frita, do frango a passarinho, do bolinho de bacalhau e de tantas outras delícias irresistíveis. São, em sua maioria, opções fritas, intensas e cheias de sabor. Mais do que simples acompanhamentos, esses petiscos carregam história, tradição e afeto: são a essência dos bares brasileiros, receitas de origem humilde que se transformaram em verdadeiros ícones da nossa gastronomia. Ainda assim, quando o assunto é hortaliças, raramente elas aparecem como protagonistas — quando muito, surgem de forma tímida, quase figurativa, como aquela folha da alface usada apenas para decorar o prato, sem nunca ocupar o lugar de destaque. Fora isso, poucas exceções entram no radar, como a batata frita, o bife acebolado ou o icônico fígado com jiló, tradicional dos bares de Belo Horizonte, a capital dos botecos.

Ao mesmo tempo, sabemos, e sentimos no dia a dia, o quanto as hortaliças são essenciais para o nosso bem-estar. Ricas em vitaminas, minerais, fibras e antioxidantes, elas nutrem, equilibram e contribuem diretamente para o bom funcionamento do organismo, além de auxiliarem na hidratação. Então surge uma pergunta inevitável: por que não levar toda essa potência nutricional e de sabor também para esse momento tão especial e quase sagrado que é sentar à mesa de um boteco? Por que não abrir espaço para que as hortaliças também brilhem “aqui nessa mesa de bar”, dividindo protagonismo com os petiscos mais tradicionais?

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Foi exatamente com esse olhar provocador e inovador que a edição de 2026 do Concurso “Comida di Buteco” lançou um desafio ousado aos mais de 1.200 bares participantes, espalhados de norte a sul do país: reinventar seus petiscos com a inclusão de “verduras” como protagonistas. A proposta vai além de simplesmente adicionar ingredientes, é um convite à transformação. Nesta edição, as hortaliças deixam de ser coadjuvantes e assumem o papel principal, valorizando ingredientes locais, receitas de família e a criatividade de cada cozinha. O resultado? Combinações surpreendentes e cheias de identidade, como bolinho de abóbora com carne seca, tempurá de quiabo, chips de batata-doce e pastel de couve com queijo. Entre os destaques, surgem criações como creme de aipim com batata-baroa e alho-poró; cestinha de couve-flor recheada com carne de lata e alho-poró; couve-flor empanada no parmesão com geleia; bolinho de batata-doce com couve e ora-pro-nóbis; espetinhos de legumes empanados; rolinho de repolho roxo; almôndegas de acelga com ervas e até um autêntico ensopado de maxixe. Cada prato revela uma nova forma de enxergar o que antes era apenas acompanhamento.

Mas o impacto dessa iniciativa vai muito além do paladar. O boteco é, por essência, um espaço democrático, acessível e profundamente enraizado na cultura brasileira. Ao inserir as hortaliças nesse contexto, o Concurso provoca uma mudança de percepção: mostra que elas podem ser tão indulgentes, criativas e desejáveis quanto qualquer outro petisco — crocantes, bem temperadas e cheias de personalidade. Além disso, essa proposta dialoga com um movimento contemporâneo cada vez mais forte: a busca por uma alimentação mais diversa e sustentável. Ao incentivar receitas baseadas em hortaliças, sozinhas ou combinadas com carnes e peixe, o Concurso amplia horizontes, abraça novos hábitos e torna a comida de boteco mais inclusiva, atendendo também quem procura opções vegetarianas ou mais equilibradas, sem abrir mão do prazer.

E tem mais: essa escolha resgata e valoriza a base da alimentação brasileira. Ingredientes como couve, ora-pro-nóbis, taioba, jambu e tantas outras hortaliças regionais ganham protagonismo e visibilidade em todo o país, incentivando o consumo de produtos locais e fortalecendo pequenos produtores e cadeias curtas de produção. Não se trata apenas de inovar no cardápio — é uma forma de impulsionar a economia local, preservar tradições e reforçar a conexão entre comida, território e identidade.

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Concurso Comida di Buteco: Criado no ano 2000, em Belo Horizonte (MG), o “Comida di Buteco” nasceu com um propósito claro: resgatar e valorizar os butecos autênticos, aqueles cheios de alma, história e memória afetiva. Mais do que um evento, trata-se de uma verdadeira competição, onde público e jurados avaliam e definem os melhores bares e petiscos do país. Em 2026, o Concurso acontece entre os dias 10 de abril e 3 de maio (na maioria das cidades) e até 10 de maio em praças como Belo Horizonte, Goiânia, Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Ou seja, ainda dá tempo de viver essa experiência, explorar novos sabores e descobrir de perto essa revolução deliciosa nos botecos brasileiros. A lista completa de cidades, bares e petiscos participantes está disponível no site oficial do Comida di Buteco — seu próximo destino gastronômico pode estar mais perto do que você imagina.
(www.comidadibuteco.com.br).

Warley Marcos Nascimento - Pesquisador da Embrapa Hortaliças e Presidente da Associação Brasileira de Horticultura (ABH); e-mail:[email protected]

 

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